Da Princesa Que Se Casou Consigo Mesma
Cecília Soares // CS -- CEP + Não é por aí que a banda toca

Era uma vez, num reino muito distante, uma linda princesinha, que j no era to inha - media 1m82 - e atendia pelo ilustre nome de Amlie Juliette Caroline Alexis Pénélope Porpington Hugues-Young de Bourbon, mas, se ela se chamasse Antônia, a história seria a mesma, de modo que não adianta nada saber o nome dela.
Como em muitas famílias daquela época, a princesinha não tinha mãe; esta tinha vindo a falecer num caso muito estranho, que nunca havia sido resolvido ou mesmo vindo tona, e nem os mais chegados família sabiam se a causa mortis tinha sido veneno na comida ou cavalo desvairado; de qualquer maneira, o rei adorava a filha, que, de certa forma, o consolava da morte prematura da esposa. Ele se encarregou então de todos os reais problemas da filha durante 15 anos, desde bonecas quebradas até vestidos muito largos uma semana antes do baile, além de suportar manhas reais por diários secretos, papelaria coreana, maquiagem preta (a princesa curtia Avril Lavigne) e assinatura permanente da Capricho.
O 16o aniversário estava chegando. A princesa, claro, já tinha ganhado montes de presentes alegando a data, mas o baile - pelas fofocas que corriam pelo reino - seria suntuoso. O rei tinha juntado a fome e a vontade de comer: para a alegria de toda a população jovem feminina do reino, todos os rapazes haviam sido convidados, e todos os que estivessem desacompanhados amarrariam uma faixa na cabea. As faixas originalmente seriam pintadas de azul, que era a cor do reino, mas o encarregado do tingimento achava azul muito frio e botou amarelo na tintura, de modo que as faixas ficaram verdes. (Esse mesmo encarregado teve a idéia das pulseirinhas de balada e dos sinais de trânsito enquanto fugia do castigo do rei - sempre praguejando que os artistas eram incompreendidos).
No reino todo, só se falava do baile. O evento em si só era importante, mas o melhor era saber quem já tinha sido convidado e quem, até então, estremecia olhando sua pilha de cartas - cheia de contas a pagar, mas sem nenhum convite com o selo real; ou o que a melhor amiga ia usar ("eu ia de rosa, mas meu horscopo falou pra eu ir de azul, ento vou de roxo"); o que a chefe ia usar (vestido de gala, Vera Wang, com certeza); o que a vizinha ia usar; quanto ia custar a decoração; se ia ter sarau; como seriam as lembrancinhas - enfim, todos os detalhes que não são perdoados se faltarem.
Os súditos fervilhavam; entre a novela, o futebol e o jornal, mas dava tempo de se planejar a ida até o castelo. Os contadores, que vagavam ignorados pelas ruas, passaram a ser requisitados e, sob uma modéstia quantia, recontavam a versão epopéica do mistério da morte da rainha, tant et si bien que essa história merecia um livro próprio (mas aí já é com vocês. Eu só conheo os fatos a partir da época da princesa...). E falando na princesa, como ela já tinha enjoado do Baile Anual de Aniversário e seus efeitos (ressaca, enjôo, dor-de-cabea, e o saco cheio de assinar folhetos de "obrigada por ter vindo"), era uma das duas únicas pessoas no reino que não estavam empolgadas com o evento - a outra era um garoto, Encantado.
Os pais de Encantado tinham se espelhado numa antiga tradição principesca que dizia que todos os garotos assim deveriam se chamar - parece que dava sorte no casamento. O nome havia sido posto na esperança de atrair um partidão, o que ainda não tinha acontecido depois de longos 18 anos de espera. Também as princesas estavam ficando menos disponíveis - a concorrência no mercado era grande.
Quem não dava a mínima para isso era o próprio Encantado, mas ele tinha uma certa tendência a viver sem dar a mínima, afundado entre livros pesados e poeirentos, pilhas de fitas de videogueime e um notebook perdido em algum lugar na baguna. E uma coisa era certa, ele não tinha interesse algum em comemorar o aniversário da princesa. Além do mais, ele não combinava com ternos.
Foi então uma surpresa geral quando, na manhã do grande dia, Encantado anunciou que ia na cidade arranjar uma roupa para o baile, porque, afinal de contas, traje é traje. Houve uma comoção na famlia pela decisão, mas depois a mãe lembrou que era a vez do filho de lavar a louça.
Se houve tempo para lavar a louça não registraram; o que houve foi um corre-corre por todos os lados, últimas inspeções a cada 20 minutos, o pai perdendo a chave de casa e a mãe dando bronca em Encantado, que queria levar um livro pra ler no baile. Depois subiram na carruagem, puxada por dois puro-sangue Ferrari, em direção ao castelo.
O baile era fenomenal. O rei realmente tinha se superado - ponches e canapés por todo lado, uma parede de água, uma decoração fabulosa, garçons vestindo Armani, violinistas de Malauí, tudo era deslumbrante. As bétulas, para a decoração da floresta, eram da Romênia; o bolo tinha 4 andares: merengue com toque de nozes e amendôas; laranja, limão e tangerina num mix com champanhe; uma base de coco e chocolate; e um topo delicado de frutas vermelhas.
Os jovens teriam um espaço para si depois da entrada triunfal da aniversariante. Ou melhor, triunfal para quem via, porque a pobre estava com os pés mortificados pelos saltos do sapato.
Como previsto, as bandas sensação da poca tocaram sem parar, atacando um sucesso atrás do outro, até que a princesa apareceu no mezanino, beléssima num vestido carmesim e uma tiara de brilhantes nos cabelos castanho-aloureados. Várias meninas soltaram gritinhos e guincharam, umas de raiva, umas de inveja, umas de ambos, e umas porque não sabiam o que fazer ao verem uma moça tão linda num vestido tão lindo. (Depois se lembraram que os garotos eram só delas.) Os rapazes, esses, não acreditavam no que viam, seria vento líquido ou sonho sólido~? mas passaram a acreditar quando um embevecido, sem querer, tropeçou no vestido e quase levou um tapa da princesa.
-NÃO TÁ VENDO QUE É GIVENCHY~?
Mas isso não chegou a abalar o prestígio da senhorita.